terça-feira, 5 de novembro de 2013

A igreja de Roberto Justus


Tem alguns anos que venho falando e escrevendo sobre a influência do “mundo maravilhoso do Roberto Justus” na Igreja. É o mundo das metas a serem alcançadas, dos lucros e bônus a serem obtidos, dos programas ativistas que devem mobilizar os membros, da imposição e determinação de rumos e tendências (e modismos) e a influência e prevalência do mais competente na concorrência por fieis. Precisamos encher a igreja porque Jesus mandou! – é o que se ouve, embora Cristo nunca tenha dito isso.
Esse mundo permeado por dinheiro e fama é o nosso mundo, é o mundo no qual vivemos. E o fato de estarmos imersos nele, por si, pressiona todos nós a seguir as suas regras, a dançar conforme a sua música, que nem sempre é sacra.
A questão se coloca complexa até para aqueles que querem orientar suas vidas pelo que dizem as Escrituras, pois a essência da mensagem bíblica precisa ser revestida por uma embalagem. É preciso traduzi-la em termos contemporâneos e práticos, e é aqui que reside o problema. Como aplicar aquela mensagem aos moldes sociais de hoje? A prática do cristianismo precisa assumir determinada forma para fazer sentido aos de fora e aos de dentro, se é que queremos ser relevantes para alguém.
E esse é o ponto crucial, e onde vejo problemas. A mensagem bíblica propõe uma descontinuidade com o mundo, não a acomodação a ele, e o mundo propõe uma conformidade social na integração de todos – a eliminação das diferenças. Aplicar determinados trechos da Bíblia ao nosso mundo exigirá algum desconforto (em alguns casos muito desconforto), o que não será fácil viver nem ao menos ensinar o que implica isso. O modo de equacionar essa relação sem traumas é fazer uma leitura seletiva da Bíblia. Lemos e “vivemos” o que é mais confortável.
Por exemplo, trechos que exigem mais trabalho e despesas são podados do vocabulário e do sermonário. Mateus 25.38-40 é uma passagem que permanece no limbo. Quem pregaria sobre ela e convocaria a igreja a vivê-la intensamente?

Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou precisando de roupas e te vestimos? Quando te vimos doente, ou na prisão, e fomos visitar-te? E o Rei lhes responderá: Em verdade vos digo que sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, ainda que dos mais pequeninos, a mim o fizestes.

Uma desculpa possível para a amputação desse texto é argumentar que a vocação daquela igreja é outra, e não cuidar dos carentes (afinal, “os pobres, sempre tendes convosco”, Mt 26.11). Que outros cuidem. Isso é remediado apresentando programas elaborados, complexos, caros e de longo alcance. “Estamos ganhando o mundo!”. Mas por outro lado estamos perdemos a alma que está sentada no banco ao lado.
Outra leitura seletiva feita dominicalmente é o clássico texto de Malaquias 3.8. “Você não está trazendo o dízimo para a Igreja? – Ladrão! Está roubando a Deus” – e cita-se o início do versículo 10. Mas apenas o início, que manda trazer “todos os dízimos a casa do tesouro”. Por que não é lido o restante do versículo, ao menos a frase seguinte? Ele não é digno de confiança? Não, a frase seguinte não é lida porque envolve responsabilidade e gastos maiores, exige sair da zona de conforto, convoca a sair do mundo de Roberto Justus onde os dividendos devem ser distribuídos, não acumulados.
O texto diz que os recursos dos dízimos trazidos são para prover o bem estar dos fieis carentes, dos que têm alguma necessidade, dos que precisam de socorro. Mas quem de nós quer comprometer-se a ter mais trabalho e gastos para socorrer irmãos que podem, por si mesmos, trabalhar “e se virar com seus problemas para lá?”. E então fazemos a leitura seletiva do texto: é lida somente a parte que interessa.
Precisamos abandonar esse modelo, mesmo que aos poucos, e equacionar a essência com a prática, romper o ciclo no qual o modelo social e econômico e a cultura na qual vivemos determina a maneira como interpretamos e aplicamos os ensinos de Jesus a nossas vidas – e até como aplicamos o dinheiro. Em 2011 a Igreja teve lucro (!) de R$ 460 milhões em rendimentos com ações e aplicações financeiras! Temos sido “engolidos” pelo modelo vigente, mas o modelo vigente é o modelo da cultura caída, corrompida, que não se importa com vidas humanas – mas as estatísticas são bem vindas (os números sim, as pessoas não).
Essa prática que importamos das corporações, das empresas de sucesso, está regendo o nosso modo de “fazer a Igreja”, está dirigindo a prática cristã no nosso tempo e nos distanciando cada vez mais daquilo que deveria ser a nossa marca distintiva, a Igreja como fonte de espiritualidade, comunhão e de humanização.
Uma Igreja poderosa pelo padrão “Justus” não faz qualquer diferença na sociedade porque se iguala a ela, e não terá nada que oferecer a alguém que procure uma Igreja justa, diferente. Os R$ 20,6 bilhões arrecadados pelas igrejas em 2011 (dados da Receita Federal) fariam anunciar uma mensagem que não poderia ser rejeitada por nenhum incrédulo. Daria para tirar com muita sobra os 6,5 milhões de brasileiros da extrema pobreza e ainda sobrariam quase R$ 20 bilhões. Mudaríamos a vida dos que estão na faixa da pobreza. Faríamos uma revolução nunca antes vista na história do cristianismo.
Mas o leitor não se iluda, porque não estou coberto de razão. Eu também estou integrado a esse mecanismo e também ajudo a “alimentar o monstro”. Mas me reservo o direito de dizer o que tenho refletido, pois tenho inquietações pessoais. Talvez eu esteja muito equivocado, e no caso alguém poderá me ajudar a ver melhor as coisas. Mas insisto em tentar lançar luz na questão para um diálogo.

O que não posso ignorar é que há algo muito errado quando um cristão, empregado, trabalhando até 12 horas por dia, dizimista, com cargo na igreja local, chega a sua casa e ouve do filho que “as coisas estão difíceis, pois só havia meio copo de leite para beber” quando o garoto chegou da escola. Ou a igreja confundiu os papeis nalgum ponto da história ou “as portas do inferno” estão prevalecendo contra ela.

9 comentários:

  1. Fabio,
    Paz
    Oremos e vigiemos para que aquela última hipótese não venha a ocorrer.
    Sua mensagem é um alerta para nós.
    Parabéns

    ResponderExcluir
  2. Este texto, veio em resposta de oração no dia de hoje, concordo plenamente.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado por comentar. Que bom que o texto foi útil.

      Excluir
  3. É, Magno. Muito bacana a observação. Eu também ando por esse caminho. Faço parte do show, e sofro com isso. É possível uma revolução? Acho que a inquietação é um bom começo.
    Abração,
    Marcelo Santos

    ResponderExcluir
  4. Marcelo, o negócio (com o perdão da palavra) é insistir. Já viu jogador de futebol americano quando pega a bola? É naquele "esquema", rs.

    ResponderExcluir
  5. Magno, falou tudo, esse espírito de religiosidade tem causado muitos danos à "Igreja", e os "irmãos" estão como cegos guiados por outros cegos...; E me enquadro perfeitamente no penúltimo parágrafo do texto acima citado; fica na Paz meu amado irmão!!! "O meu perece por falta de conhecimento". Os 4:6

    ResponderExcluir
  6. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  7. EU CHEGUEI A CONCLUSÃO QUE EU SOU A IGREJA,E QUE O BARRACÃO DE CONCRETO E SÕ UM, LUGAR DE REUNIÕES, MAS QUE VISAM LUCROS,

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Joel, essa é a conclusão a que Paulo também chegou, ele é todos os apóstolos. A questão é que você é eu sozinhos não conseguimos manter a Igreja, óu que sozinhos não temos condições de demonstrar diversos aspectos da Igreja. Então precisamos nos reunir, comungar, alimentarmos uns dos outros. Paulo mesmo disse que quando nós reunirmos, cada um tem canto, profecia, palavra etc. Não podemos simplesmente abandonar a comunidade, o grupo, pois isso seria apostasia.

      Excluir