sexta-feira, 22 de maio de 2015

God save os árabes, os edomitas, os egípcios e tantos outros



É frequente encontrar e ouvir pessoas que torcem o nariz quando o assunto é a salvação dos árabes (e dos muçulmanos), o cuidado de Deus com eles e a sua relação com os judeus. Já vi cristãos bem experientes indignados “contra” com os edomitas, os egípcios e demais povos com os quais Israel teve problemas no Antigo Testamento.
Basicamente isso acontece por uma má compreensão do leitor. A Bíblia diz que Deus fez a Abraão uma promessa específica que se cumpriria por meio de Isaque, “o filho da promessa” (Gn 15.4). Assim, quando o assunto é o seu meio irmão Ismael, filho de Agar (a egípcia), e os seus descendentes, os ismaelitas, logo se pensa que são um povo condenado, uma vez que a promessa “de Isaque” não se cumpriria em Ismael, que teve de ser despedido por Abraão. Sara orientou a Abraão para despedir o menino e sua mãe Agar, porque ele não herdaria com Isaque, “o filho da promessa”. No entanto, Deus não colocou um ponto final nessa história, mas uma vírgula, e acrescentou no versículo 13: “Mas também do filho desta serva [Ismael] farei uma nação, porquanto é tua semente [isto é, de Abraão]” (Gn 21.13).
Aqui é preciso entender, em primeiro lugar, o que a promessa significa e a que diz respeito. A promessa “sobre Isaque” (confirmada a Jacó/Israel) diz respeito à criação de um povo com vocação sacerdotal, o povo judeu. O povo judeu deveria ser a ponte para ligar as nações com o Criador; mas nisso Israel falhou. No mais, a criação do povo judeu não tem coisa alguma que ver com a salvação de outros povos da humanidade, a não ser que Jesus nasceu entre os judeus para salvar a humanidade. Eu sei que “a salvação vem dos judeus”, mas isso não significa que os judeus sejam doadores da salvação ou que tenham qualquer participação ativa, eficaz ou por graça (doação) na salvação de quem quer que seja. Aliás, até mesmo eles (individualmente) precisam da salvação oferecida por Jesus, coisa que alguns desconheciam: “... e não presumais de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que mesmo destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão” (Mt 3.9).
Em segundo lugar, a vinda de Jesus completou o modelo de Deus para a salvação de todos os povos, sem exceção. O Senhor quer a salvação de todos, porque Ele mesmo disse “não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva” (Ez 33.11). Esse é um princípio geral das Escrituras e os Evangelhos não deixam dúvida alguma sobre a abertura da salvação para todo aquele que crer em Jesus, sem vinculação genética ou consanguínea com judeus. Aliás, desde o Antigo Testamento o Senhor manifestou o interesse na salvação das demais nações existentes. Os livros dos profetas estão repletos de exemplos da boa vontade de Deus em relação aos vizinhos de Israel, embora muitos deles se mantivessem resistentes a essa oferta de salvação e a rejeitassem, preferindo os seus deuses (2Re 17.29 e outras).
Uma leitura atenta e sem preconceitos revelará que o próprio Deus disse que faria dos descendentes de Ismael filho de Agar um grande povo, assim que ele e Agar foram despedidos por Abraão:

Que tens, Agar? Não temas, porque Deus ouviu a voz do rapaz desde o lugar onde está. Ergue-te, levanta o moço e pega-lhe pela mão, porque dele farei uma grande nação. E abriu-lhe Deus os olhos; e viu um poço de água, e foi-se, e encheu o odre de água, e deu de beber ao moço. E era Deus com o moço, que cresceu, e habitou no deserto, e foi flecheiro (Gn 17-20).

Ora, há dois elementos esclarecedores nesta porção da Escritura. Primeiro, o fato de o Senhor, pessoalmente, dizer que aumentará os descendentes de Ismael, que são os povos árabes. Essa é uma questão que deixa os simpatizantes de Israel em total desconforto, porque não admitem que o Senhor possa ter feito uma promessa a Isaque e, mesmo assim, comprometer-se com Ismael. O versículo 20 enfatiza esse ponto: e era Deus com o moço, que cresceu. Deus não repugnou os árabes, nem os abandonou à perdição.
O segundo ponto, diretamente vinculado ao primeiro, é a revelação imediata a respeito da relação espiritual de Deus com os descendentes ismaelitas. Na jornada de partida, Agar havia deixado Ismael debaixo de uma árvore e afastou-se para não o ver morrer desidratado. Ambos vagavam pelo deserto já sem água e sem comida, mas nesse momento de ocaso da vida o anjo do Senhor apareceu a ela e Deus abriu-lhes os olhos, e viram um poço de água. Assim como o anjo apareceu a Abraão quando Isaque estava prestes a ser imolado no Moriá, apareceu também a Agar quando Ismael estava prestes a sucumbir no deserto e a Providência divina se manifestou rica, abundante e salvadora.
Bem sabemos sobre o simbolismo da água em toda a Bíblia e que foi Jesus mesmo quem disse que tem água viva (Jo 4.10) e “quem tem sede venha a mim a beba” (Jo 7.37). Só Ele tem a água da vida (Ap 22.17). Quem pode negar que o Senhor foi ao deserto para salvar Ismael? Ainda que a promessa da formação de uma nação recaísse sobre Isaque, Ismael e seus descendentes não são menos humanos e menos carentes da salvação e do cuidado que Deus tem para dar. Constitui-se um preconceito e má compreensão do plano geral de Deus quando certos segmentos da Igreja ignoram essa questão em favor de um apoio incondicional a Israel em detrimento aos países e povos vizinhos no Oriente Médio. Do Senhor é a terra e os que nela habitam (Sl 24.1).
O Novo Testamento deixa claro que Israel falhou em sua missão de anunciar ao mundo a vinda do Messias, o Salvador. Israel não se preocupou em anunciar aos demais povos a salvação de Deus,[1] embora o Senhor quisesse salvar a todos os homens que cressem em sua mensagem. Nesse sentido, é frequente a manifestação de Deus no Antigo Testamento lidando com determinado povo estrangeiro como sendo de Seu interesse, pois Ele criou a todos os povos e quer que todos sejam salvos (2Pe 3.9). O Senhor chamou Ciro de “meu pastor” em Isaías 44.28 e de “meu ungido” em Isaías 45.1. Também chamou o próprio Nabucodonozor de “meu servo” em Jeremias 25.9. E, finalmente, disse à “impura” samaritana que o lugar de adoração não estava entre os judeus nem entre os samaritanos, mas no coração dos homens e em todo lugar.
Frequentemente o Senhor mostrou zelo e amor por povos vizinhos a Israel embora não houvesse a reciprocidade da parte deles. Não faltam textos no Antigo e no Novo Testamento dando conta de que no futuro, quando o Senhor reinar, atrairá a Si todos os povos e reinará sobre eles. É preciso compreender o sentido das declarações de Deus dizendo que destruiria um povo rebelde e obstinado. Elas não são absolutas se considerarmos o ensino amplo, geral das Escrituras. Veja o caso clássico dos ninivitas, que foram condenados por Deus à destruição em quarenta dias (Jn 3.4), mas após a pregação de Jonas houve o maior número de conversões em toda a Bíblia: mais de 120 mil pessoas (Jn 4.11). Eles não foram destruídos como Deus disse que seriam, porque declarações dessa natureza não constituem um princípio geral nas Escrituras ou uma declaração absoluta de Deus.
Na interpretação de passagens como essa é preciso considerar:
1. A situação ou o momento histórico. A maioria das passagens dos profetas ou dos livros históricos do antigo Testamento que condenam um ou outro povo tratam de situações específicas na contagem do tempo. O próprio Israel foi desalojado de sua terra pela desobediência, mas posteriormente restaurado pelo Senhor. Então, em dados momento, um povo está em rebelião contra Deus, mas noutro momento histórico a reconciliação poderá acontecer.
2. O ensino amplo como princípio geral para os casos particulares. Deus não tem prazer na morte do ímpio é um princípio geral em toda a Bíblia. Assim, sempre que houver arrependimento, de quem quer que seja, o Senhor se dispõe a voltar atrás em sua Palavra e salvar o arrependido. Ele criou a humanidade e não desistiu dela, portanto, é enganoso pensar que Deus queira destruir um povo que deu as costas para ele ou que Deus rejeite esse povo hoje. O Senhor amou o mundo de tal maneira (Jo 3.16).
 Na plenitude dos tempos, no Novo Testamento, a linguagem da reconciliação entre os povos é franca e mais frequente. Se no passado Noé havia dito uma sentença sobre o destino de seus filhos (embora muitos interpretem como sendo uma maldição de Deus, quando não foi), no Novo Testamento o próprio Espírito Santo agiu para revogar a sentença do patriarca, se é que ela teve algum efeito prático. A humanidade foi dividida em três ramos, conforme cada filho de Noé (Sem, Cam e Jafé). Entendemos que deles descenderam os povos que aparecem na Bíblia, os bem sucedidos e os não tão bem sucedidos. Mas com a vinda de Jesus no Novo Testamento, Deus propôs um equilíbrio, uma reaproximação ampla para a humanidade por meio da reconciliação oferecida em Jesus. Assim, os etíopes, descendentes de Cam, foram restaurados (At 8), como também os descendentes de Sem, como Saul (At 9) e os descendente de Jafé, como Cornélio (At 10). Ninguém foi rejeitado, porque o Senhor não rejeita povo algum, uma vez que Ele mesmo os criou. Depois, em Atos 11, surgiu uma igreja que entendeu o sentido plural de sua missão de levar a salvação a todos os povos, a igreja em Antioquia, onde pela primeira vez as pessoas de fé foram chamadas de cristãos (At 11.26).
Desse modo, a despeito de todas as maldições e distanciamentos ocorridos no passado remoto, nenhuma dessas armadilhas se mantém ativas diante do amor de Jesus na direção do pecador perdido, independente da sua origem étnica ou cultural. A oferta de salvação feita por Deus ao homem não se vincula a uma cadeia de DNA, mas existe exclusivamente pela fé; ninguém deve levantar dúvidas aqui (Ef 2.8,9). Assim, sejam os antigos babilônios (atual Iraque), sejam os persas no Irã, sejam os egípcios (onde surgiu uma das primeiras igrejas cristãs fora da Palestina ainda nos tempos dos apóstolos), sejam os edomitas (descendentes de Esaú; Gn 25.30), os moabitas e os amonitas na atual Jordânia,[2] sejam os árabes ismaelitas ou quem quer que seja, todos foram postos debaixo da maldição para que Deus usasse de misericórdia para com todos: “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” (Rm 11.32).



[1]Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que fechais aos homens o Reino dos céus; e nem vós entrais, nem deixais entrar aos que estão entrando” (Mt 23.13).
[2] O atual rei da Jordânia, em encontro com o presidente da Armênia, Serzh Sargsyan em janeiro de 2015, manifestou-se da seguinte maneira sobre os cristãos no Oriente Médio: “Os cristãos deram a sua própria contribuição à edificação da civilização árabe. Por isso, o fenômeno do deslocamento forçado das comunidades cristãs nativas do Oriente Médio é um problema grave, que deve ser freado a todo custo”. http://www.acidigital.com/noticias/rei-da-jordania-pede-frear-o-exodo-dos-cristaos-do-oriente-medio-73643/ em 22.05.2015.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

12 Fatos e Versões (enganosas) sobre a Guerra de Israel contra Gaza

12 Fatos e Versões (enganosas) sobre a Guerra de Israel contra Gaza

1. Sei que corro o risco de não ser suficientemente claro e não cobrir adequadamente cada ponto da questão, mas sei também que muitos cristãos têm uma visão “romântica” e equivocada sobre essa Guerra. Por isso, os pontos abaixo são introdutórios para que você, cristão, reflita sobre FATOS, sobre a verdade, não sobre “paixões” ou mentiras da propaganda da guerra. (o texto não foi revisado)
2. Eu não defendo terroristas de um lado nem de outro. Eu lido com fatos, com a verdade mais ampla, além do que diz “a voz do povo”.
3. Não sou antissemita. Antissemitismo é hostilidade a semitas (árabes e judeus são semitas). Eu não sou favorável a política de Guerra, de colonização, o que está bem longe de caracterizar-se antissemitismo. Não concordar com o governo de um país não significa ser hostil ao seu povo.
Vamos aos fatos.

1. Israel só quer a paz.
Isso é uma VERSÃO que ilude. Israel de fato fez a paz com países vizinhos, Egito, Jordânia e outros. Mas esses países têm o seu próprio território. Eles não atrapalham os planos de Israel de ocupar toda a Palestina, assim é “útil” usar esse argumento.
Analistas especializados acreditariam que Israel "só quer a paz", como defensores de Israel dizem, se ele ao menos cumprisse os acordos para não ampliar o programa sistemático do governo para os assentamentos. A questão dos assentamentos é crucial para o estabelecimento da paz verdadeira e sinalizaria para os palestinos o “desejo real” de que ela seja negociada e que Israel está trabalhando para a paz. Israel descumpre resoluções da ONU, que são acordos internacionais válidos, ao ampliar assentamentos, e descumpre as determinações da própria Suprema corte de seu país.

Ainda sobre os assentamentos.
1. Assentamentos são ilegais, pois são construídos em território palestino.
2. Fala-se muito que o Hamas coloca os palestinos como escudo humano. Do ponto de vista ético, Israel faz o mesmo usando os colonos. Dá subsídios para que construam os assentamentos, cobram baixos impostos e garantem a proteção do exército contra os palestinos que, obviamente, atacam. Por que atacam? Porque os colonos estão construindo em seus territórios, sítios, campos agricultáveis etc. Se alguém montasse uma barraca de camping no seu quintal ou apartamento você não reagiria? Geralmente os colonos são igualmente radicais, ortodoxos.
3. Também já ouvi dizer que Israel ganhou os territórios pela guerra. Assim, tem direito a eles. Isso é fato, mas por que negar aos palestinos a reconquista de territórios também pela Guerra? É preciso usar os mesmos critérios para ambos os povos.

2. O Hamas é um grupo terrorista.
Essa é uma generalização e generalizações levam a imprecisões e a mentiras em muitos casos. O Hamas não é um grupo monolítico. Divide-se ao menos em três setores.
1. O comando político é de onde partem as ordens e as determinações no que diz respeito à política e relações internacionais. Em 2005 o Hamas venceu as eleições na Palestina e assumiu cadeiras na Autoridade Palestina (AP), o governo palestino. Há eleições na Palestina (o que levaria a crer que há democracia como em Israel? Isso é outra questão).
2. O Hamas tem uma forte ação social, com escolas, clínicas, coleta de lixo (que a AP não tinha). Eles estimulam o ódio desde a infância nas crianças que estudam em suas escolas. Não aprovamos isso, evidentemente. Mas observando o programa de outros governos (o nosso, por exemplo), encontraremos programas que também não são os ideais. Do ponto de vista “moral”, Israel também não age corretamente, pois seus livros escolares omitem a existência legítima dos palestinos. Afinal, aquele povo não existe? É uma miragem?
3. O último "braço" do Hamas são as brigadas Izz al-Din al-Qassan, o exército do Hamas. Alguém dirá: não é exército, é grupo terrorista: então leia o ponto “3”, abaixo. As ações do Hamas podem ser vistas como militares, não simplesmente como “terroristas”. Cada exército usa as armas que têm a sua disposição.
Um terrorista entrevistado pelo ex-deputado israelense Uri Avnery disse que se tivessem tanques e caças deixaria de enviar homens-bomba contra Israel. Os homens-bomba não têm “aparecido” muito porque Israel construiu o muro de contenção que separa (ou segrega) os palestinos. Por isso vemos o aumento no uso de mísseis.
O terrorismo é a arma dos pobres, mas isso não faz dele ilegítimo. (veja mais abaixo outros pontos sobre Terrorismo). O Hamas é um grupo de resistência, o seu próprio nome diz isso. Hamas significa “Movimento de Resistência Islâmica” em árabe. A resistência é, sim, legítima em qualquer parte do planeta. A resistência existe porque alguém ocupa o território do outro. Quando fazem resistência, os palestinos estão defendendo o território onde moram há muito tempo. Israel tem o direito de se defender e de existir, isso é FATO. Mas por que os palestinos não teriam? Eles são “menos povo”? (veja mais no final dos 12 pontos.

3. Israel é o povo de Deus e não faz terrorismo.
Isso não é uma versão dos fatos, é PURA MENTIRA e desconhecimento dos fatos. Três motivos desmontam esse argumento falacioso.
Primeiro, terrorismo é o ato de “aterrorizar uma população”. Na Guerra contra Gaza, a população israelense sofre, mas o FATO é que os palestinos são aterrorizados. O escudo protetor de Israel (Iron Dome) faz um bom trabalho, tanto que os guias turísticos em Israel gravam vídeos e publicam na internet para que turistas "vejam" que está tudo bem por lá (e com isso o turismo não seja de$aquecido).
Segundo, em direito internacional há dois tipos de terrorismo: o alto terrorismo ou terrorismo de Estado e baixo terrorismo. O Hamas faz baixo terrorismo, Israel faz terrorismo de Estado ou alto terrorismo. Ambos são terrorismo.
O terceiro argumento está apresentado no ponto 5, abaixo.

4. Israel é o povo de Deus.
O povo de Deus é a comunidade de fé. Foi assim desde Abraão e assim é até hoje. Jesus e Paulo disseram que não são judeus legítimos (do ponto de vista da salvação) quem é geneticamente. Jesus chegou a dizer que até das pedras Deus pode fazer brotar filhos a Abraão (Mateus 3.9: “Não fiqueis dizendo a vós mesmos: Abraão é nosso pai! Eu vos digo que até dessas pedras Deus pode dar filhos a Abraão”).
Povo de Deus é quem tem a fé em Jesus Cristo e isso vale para TODOS, palestinos judeus, brasileiros, nigerianos etc. “Deus amou O MUNDO de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.
Nem todo o povo judeu será redimido por Deus no final dos tempos. Somente os que tiverem a fé, conforme diz a Bíblia. Veja que no Apocalipse há um grupo (remanescente) a ser salvo. Não serão todos. Isso não é porque eu não quero assim (como insinuaram), mas porque diz a Bíblia. Leia-a.

4. Só os árabes/palestinos são terroristas.
A ideia “comum” é que só palestinos fazem terrorismo. Quero apresentar os grupos terroristas compostos por judeus, ou “Hamas sionista”, como vou chamá-los. Sim, GRUPOS TERRORISTAS JUDEUS. Geralmente cristãos acham um milagre de Deus que o povo judeu foi levado da Europa para a Terra Santa, e de fato há profecias usadas para confirmar isso. Mas muita gente desconhece os três grupos terroristas que judeus criaram nas décadas de 1920 e 1940.
a. O primeiro deles foi o Corpo de Muleiros de Sião, formado em 1920 por Wladimr Jabotinsky, famoso guerrilheiro judeu russo. Esse Corpo de Muleiros apoiava tropas aliadas. Mais tarde deu origem a Haganá, de onde nasceu o exército de Israel (que, assim, nasceu de um grupo terrorista. Uau!).
b. O segundo foi formado no final dos anos 1930, o Irgun, que servia para proteger (e fazer resistência, como o Hamas) os judeus colonos que criavam os primeiros assentamentos nos territórios que passaram a ocupar. O Irgun atacava tanto árabes quando britânicos, os mesmos britânicos que autorizaram os judeus da Europa a irem para a Palestina, que era controlada pelo Mandato Britânico. O Irgun judeu cometeu atentado contra o quartel-general inglês, o prédio onde hoje funciona o Hotel King David, causando inúmeras vítimas judias e árabes.
c. O terceiro grupo foi formado em 1940, o Lehi (Guerreiros da Liberdade de Israel), ou Grupo Stern (ou Gang Stern), foi criado por Abraham Stern. Eles assassinaram o Duque Bernadotte, inglês, porque ele se opôs com a ONU aos objetivos sionistas. O Lehi era tão ou mais violento que o Irgun. Assassinaram também o primeiro ministro britânico do Oriente Próximo, Lorde Moyne.
Os três grupos eram CLANDESTINOS, não foram reconhecidos pelos britânicos. Quando alguém diz que o Hamas é terrorista e não tem legitimidade, precisa explicar como ficam os judeus como esses três grupos também TERRORISTAS, que faziam RESISTÊNCIA, tal qual o Hamas. Dois pesos, duas medidas? É desonesto.
Menachem Begin transitava entre dois desses grupos. Depois se tornou o sexto primeiro-ministro de Israel em maio de 1977, “recebeu o Nobel da Paz” (!), como o egípcio Yasser Arafat (!), o “grande líder do povo palestino”. Ironia da história.
Olhando na perspectiva histórica, a OLP e o Fatah de Arafat (“antigamente” terroristas) e o Irgun (por exemplo), também terrorista, vemos que todos “mudaram”. O Irgun forneceu seus membros ao que hoje é o Partido Likud, de outro soldado, o falecido Ariel Sharon. O Likud é hoje “legítimo”, não? Assim, historicamente, antigos terroristas se desenvolvem para partidos políticos quando suas causas são legítimas (e nacionalistas).
Não acredito que o Hamas fugirá à regra. Fatah, Irgun, OLP, hoje são partidos políticos, mais que grupos militares.
(além destes, há grupos terroristas em funcionamento em Israel HOJE, que atacam árabes e muçulmanos por motivos religiosos).

5. Israel tem direito a todo o território.
VERSÃO enganosa. Desde o Mandato Britânico Israel tinha direito a uma parte da terra, não toda ela. Sofreu guerras feitas pelos árabes, conquistou e ocupou terras que não estavam no acordo de partilha. Foram quatro guerras (1948, 1956, 1967, 1973) nas quais Israel ampliou o espaço, ocupando-os. Mas a ONU não reconhece isso, portanto, é OCUPAÇÃO ILEGAL. Se você “ama” Israel a ponto de apoiar a ocupação, suspeito que você transgrida uma lei internacional juntamente com o apoio que dá a Israel.
Há quem diga (eu já ouvi isso várias vezes): “Israel ganhou esse espaço porque venceu a guerra”. Sendo assim (para ser BEM HONESTO) é preciso reconhecer que os palestinos também estão lutando/guerreando porque querem mais “espaço”.

6. Palestinos são todos terroristas.
Palestinos são pessoas, nascem como você e eu. Não há DNA terrorista. O ódio que sentem pelo que a política sionista de Israel faz é um ódio que vem com o tempo, depois de tanto sofrimento.
Muita gente não sabe, mas há cristãos na Faixa de Gaza, há cristãos na Palestina (Cisjordânia). Em Belém, por exemplo, pelos menos 20% da população é cristã. Há dez anos havia 30%; diminuiu porque o Hamas oprime o povo. Mas generalizar dizendo que todos os palestinos são terroristas é uma ignorância absurda.
Assim, quando um cristão diz: “Israel tem que matar os palestinos”, está dizendo “Israel tem que matar meus irmãos de fé”. É assim que você, cristão, pensa?

7. Israel só começou a Guerra porque o Hamas atacou.
MENTIRA. Depois que os três jovens, Naftali Frankel, Gil-ad Sha'er e Eyal Yifrach, foram encontrados mortos, o primeiro ministro de Israel, Benjamim Netanyahu veio a público anunciar “que o Hamas irá pagar” pelas mortes. Na noite do velório dos jovens, Israel fez 42 ataques contra Gaza.
1. A atitude/pronunciamento de Netanyahu foi irresponsável, porque estimulou a população de ambos os povos ao conflito. No dia seguinte ele tentou “amenizar” a declaração anterior.
2. O Hamas, PRIMEIRAMENTE ATACADO por Israel, revidou, contra-atacou. Como diz Netanyahu e seus defensores, “que país não se defende quando é atacado”?
Obs. 1 Hamas não assumiu as três mortes. Por que não assumiriam, se já assumiram atentados piores? Se fizesse isso, ganharia “ponto” diante dos palestinos.
Obs. 2 A milícia "Seguidores do Estado Islâmico em Bayt al Maqdis", ligado ao Estado Islâmico do Iraque/Síria assumiu as mortes.
Obs. 3 Os garotos eram colonos, portanto, ocupantes de território alheio. Isso não justifica as mortes, mas é uma informação que precisa ser considerada por quem quer fazer uma avaliação justa e honesta.

8. Palestinos são todos muçulmanos.
VERSÃO do senso comum. Palestinos são formados por muçulmanos em sua maioria, mas também por cristãos e secularistas, ou seja, aqueles que não seguem qualquer religião.

9. No passado, Israel foi vítima do terrorismo do Hamas.
VERSÃO enganosa. Como disse, o ódio não nasce conosco; as pessoas aprendem a odiar por um motivo específico. Israel está na Palestina há muito tempo. Foi oficializado como Estado legítimo em 1948, já oprimindo os habitantes da terra. O Hamas foi criado em 1986 como grupo de resistência, como já disse. Fez o seu primeiro atentado terrorista somente em 1994. Sabe em quais circunstâncias? Depois que um judeu fanático de nome Baruck Goldstein ASSASSINOU 29 palestinos que rezavam numa mesquita em Hebrom. ENTÃO, como revide a violência sofrida, o Hamas fez o seu primeiro atentado. Se você notar a ordem dos fatos, verá que há muita mentira e propaganda enganosa circulando por aí sobre o que, DE FATO, acontece por lá.

10. Os militantes do Hamas obrigam os palestinos a servirem de escudos humanos.
MEIA VERDADE. O Hamas já fez isso, SIM. Mas isso não significa que TODOS os palestinos de Gaza devam servir como escudos. A prova são os quase 200 mil refugiados dessa guerra. Se o Hamas OBRIGASSE A TODOS os palestinos de Gaza a servirem de escudo humano, não haveria refugiados! Simples assim.
Obs 1. QUALQUER PESSOA que estivesse à beira de perder tudo, casa, família e a própria vida, não ofereceria resistência? Se estão atacando você e seu patrimônio, você simplesmente fugiria sem resistir? Coloque-se, HONESTAMENTE, no lugar de um palestino e reflita sobre a sua atitude frente a uma ocupação violenta e os seus próprios atos.
Obs 2. Do ponto de vista MORAL, Israel faz algo “semelhante”. Isso é consenso entre os especialistas, não é mera opinião minha, ainda que você não aceite. Ao colocar seus colonos em território palestino, e o exército para “protegê-los”, o Estado de Israel está ampliando a sua ocupação à custa da ação arriscada de seus cidadãos. A prova são os três adolescentes mortos, e tantos outros que já foram atacados. Essas vidas se perdem (morrem), mas o Estado GANHA. MORALMENTE, não há muita diferença.

11. Criticar Israel é ir contra Deus.
Não é verdade. Israel é um Estado, o povo judeu nem sempre é favorável ao que o Estado faz, e os judeus remanescentes (que serão salvos) são outra coisa (leia o Apocalipse). Deus não criou um Estado, criou pessoas. Deus não salvará UM ESTADO, mas pessoas de fé. Criticar um Governo, qualquer que seja, é lícito. Pedro disse que importava obedecer a Deus, não a homens (o contexto era os legisladores corruptos). Criticar a política de guerra de Israel não é ir contra Deus em hipótese alguma. Esse argumento usado pelos defensores de Israel não encontra apoio numa leitura séria da Bíblia.

12. Os árabes/palestinos querem destruir Israel.
Quem disse a frase que deu origem a isso foi o presidente do Egito Abdel Nasser. Antes da Guerra de 1967, ele disse que iria lançar Israel no mar. Não o fez. Depois dele, Saddat, sucedeu-o na presidência do Egito, fez a paz com Israel, chegando a ir a Jerusalém.
De lá para cá os árabes usam essa frase e os “anti-árabes” também a usam para dar maior credibilidade ao que afirmam.
Mas só os árabes querem destruir Israel? NÃO. Frase por frase, veja o que disse o bem conhecido Ben Guryon (aquele que fez o anúncio da fundação do Estado de Israel em 15 de maio de 1948). Ele declarou: “Os palestinos devem ir embora desta terra. Precisamos de uma oportunidade para fazer isto, como uma guerra”.
Agora, seja honesto com a sua consciência: você acredita mesmo que há santos de um lado e demônios do outro?

* Ajude a divulgar A VERDADE. Não acredite em informação tendenciosa de quem defende o seu próprio interesse, ou porque lucra com isso, ou porque não conhece a verdade dos fatos.

** Há documentação pública sobre tudo o que escrevi acima.

Obs. os pontos acima podem ser melhor detalhados, mas optei por colocá-los resumidamente a fim de prover uma panorama sucinto de toda a questão.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A Igreja entre empresas e ONGs

É notável a influência da cultura geral na vida e no comportamento da Igreja. Em partes isso é natural, uma vez que cristãos vivem a maior parte do seu tempo "fora" da Igreja, no trabalho, no comércio, nas escolas. E é notável que igrejas adotam elementos da cultura, como também a tecnologia e o modo de organizar a vida social, ou seja, não fazem uma avaliação crítica do comportamento social comum antes de adotá-lo no dia a dia pessoal e da igreja.
Dessa forma, é curioso que as empresas (indústria e comércio) de hoje se preocupem com o bem estar de pessoas que não estão necessariamente ligadas a elas e que não são suas clientes efetivamente. Isso também é uma forma de vender uma boa imagem institucional. O chamado Terceiro Setor está aí para demonstrar o vigor dessa maneira de fazer ações sociais sem esperar lucros diretos e imediatamente. As ONGs também são uma demonstração do mesmo espírito, mas como uma iniciativa a partir da sociedade civil. O objetivo civil em ambos os casos é a vida humana, o melhor convívio social e um mundo melhor e mais justo (à medida do possível).
Assim, as igrejas que pensam em ser percebidas pela sociedade como relevantes, necessárias, justas e que tenham "algo a dizer" (ou que esperam por um momento em que possam falar), não poderão pensar em ganhos, digo, em recolher a contribuição financeira de seus membros para projetos que beneficiem somente "os de dentro". Se num país capitalista a sociedade civil e as grandes corporações suspendem temporariamente a ânsia por lucros para pensar na qualidade da vida humana, a Igreja não poderá fazer menos que isso. Se fizer, será rejeitada e repudiada (e servirá apenas para ser lançada fora e pisada pelos homens, cf. Mt 5.13). Penso que boa parte dos problemas da Igreja com a sociedade e os detratores que a querem mal se dá neste ponto: a indiferença dos cristãos com as causas e demandas da sociedade mais ampla (além dos escândalos envolvendo os desmandos na área financeira). Se as igrejas se ocupassem menos consigo e dialogassem com os de fora, se envolvessem com a dor e o sofrimento das pessoas à sua volta e fizesse um trabalho de amor e serviço (como é a sua vocação), teríamos mais vez e mais voz (e respeito) dos de fora.
A Igreja teve início sendo "chamada para fora" (é isso o que significa o seu nome grego Ekklesía). Ao olhar "para dentro", ela perde a sua razão de ser. Ao trabalhar apenas para os de dentro, ela deixa de ser Ekklesía. Olhar para fora e para os de fora é o que dá sentido a sua existência.
Os bons empresários e homens de bem da sociedade "mundana" perceberam isso. Por que ela demora tanto a fazer o mesmo?

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A Igreja que desapareceu


O que há nas igrejas que possa atrair pessoas? Pense.
Você iria a uma Igreja, assumiria compromisso irrestrito com os programas que ela propõe, se necessitasse um “milagre financeiro? Esse apelo atrai muita gente, mas de certo os mais sensatos seguirão o conselho dado pelo bom senso e pela Bíblia para cada um trabalhar (Mt 5.45; Ef 4.28; 2Ts 3.10).
Muitas pessoas que precisam de aconselhamento talvez prefiram recorrer a um profissional que estudou para isso; um psicólogo é uma boa alternativa – ainda que não seja a melhor e nem a única.
Que outro motivo levaria alguém a uma Igreja?
Pessoas desanimadas, cansadas da vida, poderiam procurar uma Igreja. Mas também poderiam ir ao teatro, a um espetáculo do tipo stand up comedy. Também poderiam assistir a uma palestra motivacional. Há muitas alternativas às quais se possa recorrer que, convenhamos, são melhores do que muitas igrejas por aí.
Pessoas da última e da nova geração encontrarão dificuldade em procurar uma igreja, porque as Igrejas não têm dado motivo que apele para tanto. As “respostas” que parte das Igrejas tem dado são para perguntas que não têm sido feitas. Em grande parte, os programas semanais e dominicais das Igrejas são rígidos demais em torno do conforto e bem estar daqueles que sustentam a estrutura – falta vida e sinceridade. Não há espaço para variações, porque há um time ganhando com a manutenção desse modelo – e em time que ganha ninguém mexe.
Mas procure fazer um exercício de alteridade, olhar a Igreja a partir do olhar do outro, de quem está fora da Igreja. Esqueça por um minuto o que você sabe sobre salvação, sobre vida eterna, sobre inferno, sobre bênçãos, e tente sentir-se atraído a uma Igreja pelo que ela oferece, comparando-a com as ofertas existentes no mercado.
O que você consegue enxergar?
Seja honesto, e procure ser atraído a uma igreja como ela se mostra a partir do olhar do outro.
Houve um tempo quando as Igrejas influenciavam a sociedade, davam opções de vida condigna, mudavam leis, serviam de referencial moral, apontavam caminhos alternativos razoáveis para toda a vida, tinham um modo de pensar coerente e eram uma opção a ser considerada. Embora com poucos membros em relação a população evangélica atual, as Igrejas formavam uma sociedade diferente, vigorosa, alegre e que dava certo.
E hoje, quais as ofertas ela faz que justifiquem a adesão a qualquer delas?
Há Igrejas que são clubinhos de egoístas, que só pedem coisas ao deus Mamón o tempo todo; não conseguem enxergar o mundo além do próprio umbigo e do dinheiro que ocupa suas fantasias e nada sabem sobre generosidade, compaixão e comunhão com pessoas diferentes. Há Igrejas com música de mau gosto e com pregadores sem qualquer capacidade para fazer uso do microfone; homens e mulheres que mal sabem se expressar e assaltam a língua portuguesa – e o ensino bíblico também. Não estou ridicularizando pessoas simples; tenho em mente os aproveitadores da fé, que não conseguiram um bom emprego no mercado de trabalho e migraram para as igrejas a fim de ganhar o dinheiro de gente vulnerável a uma boa lábia.
Há muitas Igrejas que se fecharam em si mesmas numa cúpula de pretensa santidade, e vivem apontando o erro dos outros pensando que só eles irão para o céu. Que a salvação não depende do comportamento reto é uma verdade que eles não conheceram ainda porque nada entenderam das próprias palavras de Jesus.
Que atrativo, então, há para pessoas de fora da Igreja? O que é que estamos fazendo de razoável que chame a atenção de homens, mulheres, jovens e adolescentes para Jesus Cristo hoje?
As Igrejas não dão nada a ninguém; só queremos para si e para acumular. Como escrevi aqui, só em 2011 a Igreja teve lucro (!) de R$ 460 milhões em rendimentos com ações e aplicações financeiras!
A Igreja não é mais uma referência moral inconteste. Há políticos, empresários, artistas e profissionais que adotam o mesmo condicionamento da cultura produzida nas ruas, ou seja, o padrão “mensalão” de que tanto se fala. Em muitos casos não temos sequer um discurso atraente, pois nos voltamos somente para dentro, para a manutenção do que temos e do que conseguimos, e não para o campo, para o mundo. Falamos linguagem de gueto, por códigos e não por parábolas que usam as experiências cotidianas das pessoas.
Concordo que precisamos treinar missionários, mas urgentemente é preciso fazer cristãos para viverem suas atividades cotidianas como missionários. Precisamos pensar em atender ao outro, ao de fora, resgatar o significado da palavra Igreja, que no grego ecclesia, “para fora”, mas que só entendemos como “para dentro e para nós”.
As nossas liturgias são boas, mas são boas para nós. Os nossos programas são bons, mas são bons para nós. Os nossos templos são bons, mas são bons para nós. Não gosto nem de pensar em pastores e líderes que ordenam a retirada de pessoas mal vestidas de seus templos. Isso daria um texto ais longo ainda!
Se eu consegui ser claro, você entendeu que não quero acabar com tudo, “cospir no prato que tenho comido”. Se eu consegui ser claro, você entendeu que precisamos nos arrepender, rever as prioridades e voltar à cena, reaparecer, ou melhor, mostrar Cristo em nós, a esperança da glória.

... a quem Deus, entre os gentios, quis dar a conhecer as riquezas da glória deste mistério, a saber, Cristo em vós, a esperança da glória. (Colossenses 1.27)


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Os testemunhos que envergonham a Igreja


Quem nunca ouviu contar um testemunho de dificuldade ou privação financeira que tivesse sido solucionado por Deus? Não sei há quanto tempo essa prática foi introduzida na liturgia do culto evangélico, pois desde a minha conversão, há mais de vinte anos, vejo que tem sido praticado comumente.
O último testemunho desses que ouvi tem alguns dias e foi dado por um pastor amigo meu. Na ocasião referida na história, contou, era recém-casado e estava sem dinheiro. Assim, combinou com a esposa de dormirem até mais tarde na tentativa de “escaparem” do café da manhã. Deus, em sua fidelidade, enviou um irmão que providenciou, uma cesta básica pela manhã e ajuda financeira.
Que Deus é fiel naquilo que promete, não temos dúvidas; que Ele faz milagres, isso sabemos. Mas esses testemunhos são a prova de que há algo muito errado no modelo de Igreja que nós temos sustentado. A Igreja coleciona acertos em várias atividades, mas há aspectos do modelo de igreja tal qual se vê hoje no Brasil que estão falidos à luz da Bíblia. Desse modo, é uma vergonha para nós que testemunhos assim sejam dados sistematicamente com o intuito de engrandecer o nome de Deus. Em algum momento da trajetória da Igreja fomos condicionados a certos desvios (que eram a exceção) que nos levaram para muito longe do alvo (se tornaram a regra). Eu explico.
Primeiro, uma olhada na maneira como a igreja em Jerusalém conduzia questões semelhantes revela que jamais houve entre aqueles cristãos testemunhos assim. Havia pobreza? Sim, havia muita pobreza. No entanto, os irmãos reuniam-se a ajudavam-se mutuamente de modo a não permitirem que alguém sofresse privações. Foi neste contexto e com essa finalidade que o quadro de diáconos foi criado (Atos 6). Deus age por meio da ação da Igreja, não exclusivamente por meios sobrenaturais.
Testemunhos como o do meu amigo pastor jamais seriam ouvidos em Jerusalém. Não só a igreja local estava envolvida no socorro aos necessitados, mas igrejas de regiões distantes também se mobilizavam para o auxílio aos pobres de Jerusalém. “Porque pareceu bem à macedônia e à Acaia fazerem uma coleta para os pobres dentre os santos que estão em Jerusalém” (Romanos 15.26). Seria vergonhoso e impensável alguém ter de dormir até mais tarde por falta de café da manhã, pois eles se ajudavam mutuamente e usavam bem os recursos trazidos pelos outros cristãos.
Esse quadro nos leva a um segundo ponto. Paulo orientou a que informássemos aos santos as necessidades que sofremos. Ele escreveu: “Comunicai com os santos nas suas necessidades” (Romanos 12.13). Que igreja está preparada e disposta a socorrer membros em suas necessidades? Não faz parte dos planos e dos programas normais das igrejas o socorro aos seus membros, digo socorro financeiro ao menos. A atenção maior tem sido dada e os recursos têm sido drenados para programas de expansão que não contemplam os próprios membros, antes, a divulgação do Evangelho. Penso ser um equívoco metodológico substituir o nosso testemunho pessoal diário, nas atividades comuns (nos âmbitos profissional, educacional e social) por programas caros que envolvem a minoria e não reúnem o máximo potencial humano da igreja, que a bem da verdade fica sentada nos bancos almofadados à espera do culto espetáculo. Em outras palavras, é mais frutífero (e bíblico) gerar cristãos que deem bons testemunhos nas suas atividades diárias, que sacar dinheiro de muitos para que poucos façam “a obra”.
Diante da confissão da necessidade de um irmão, o mecanismo padrão é “orar” e esperar que Deus dê a vitória ou faça “o tal do milagre”, que na minha modesta opinião acontece mais por pura misericórdia que por qualquer outro motivo. Deus não precisaria fazer milagre algum se nós mesmos praticássemos o que a Palavra diz para ser praticado. Se Deus tem feito milagres assim, é porque nós temos sido negligentes e egoístas até ao limite. Se esperássemos o socorro vindo “da terra”, muitos de nós já teríamos ido para o limbo.
Um modo novo de livrar-se dos “pobres necessitados” é acusá-los de falta de fé. Pessoalmente ouvi um pastor dizer que para resolver uma situação de dívida, o membro deveria fazer “um desafio de fé”, que nada mais é que aquelas famosas extorsões em nome de Deus. O texto de Provérbios 3.28 é claro, mas parece bem esquecido: “Não digas ao teu próximo: Vai, e volta amanhã que to darei, se já o tens contigo”. E o que diríamos de Tiago 2.14-17, que fala das “pessoas de fé” que não movem um dedo em favor do próximo?
E, finalmente, quero insistir no “clássico” texto de Malaquias 3.10, que diz: “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa...” (Ênfase acrescentada). O que fazer com essa segunda frase do versículo? A frase condena os administradores das igrejas de modo geral por uma vergonhosa e flagrante omissão. À bem da verdade um roubo flagrante, pois se o membro que não traz o seu dízimo “rouba ao Senhor”, consequentemente a igreja que não cumpre o mesmo texto aponta para si o mesmo dedo acusador. Quando o texto diz “para que...”, o profeta-autor está indicando a finalidade, o uso devido a que os recursos dos dízimos devem ser destinados. A prioridade é o sustendo das necessidades locais dos membros, nada mais que isso. Enquanto houver um único membro padecendo, as atenções devem ser dadas a ele. Que adianta ganhar o mundo e perder a alma sentada ao lado?
Se as nossas igrejas cumprissem esse mandamento de Malaquias, jamais um testemunho como o mencionado acima poderia ser dado por qualquer um de nós. Nisso ficamos longe, muito longe, de todos aqueles a quem chamamos de hereges, como os maçons, os kardecistas, além de tantas outras religiões e organizações civis que cumprem facilmente o socorro aos membros de suas organizações. Alguém dirá que eles não têm fé em Jesus para serem salvos, e eu evocaria Tiago para dizer que “também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma” (Tg 2.17).

Na postagem anterior falei das receitas anuais das igrejas e da revolução que poderíamos fazer se levássemos a sério o que a Bíblia ensina sobre o uso dos recursos que reúne. A nossa “sorte” é que hoje não há alguém para cobrar isso de nós. E podemos nos desculpar dizendo que “isso sempre foi assim”; por enquanto. O que não dá para dizer é que o nosso ativismo é abençoado por Deus quando a Bíblia diz o contrário: “Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tg 4.17).

terça-feira, 5 de novembro de 2013

A igreja de Roberto Justus


Tem alguns anos que venho falando e escrevendo sobre a influência do “mundo maravilhoso do Roberto Justus” na Igreja. É o mundo das metas a serem alcançadas, dos lucros e bônus a serem obtidos, dos programas ativistas que devem mobilizar os membros, da imposição e determinação de rumos e tendências (e modismos) e a influência e prevalência do mais competente na concorrência por fieis. Precisamos encher a igreja porque Jesus mandou! – é o que se ouve, embora Cristo nunca tenha dito isso.
Esse mundo permeado por dinheiro e fama é o nosso mundo, é o mundo no qual vivemos. E o fato de estarmos imersos nele, por si, pressiona todos nós a seguir as suas regras, a dançar conforme a sua música, que nem sempre é sacra.
A questão se coloca complexa até para aqueles que querem orientar suas vidas pelo que dizem as Escrituras, pois a essência da mensagem bíblica precisa ser revestida por uma embalagem. É preciso traduzi-la em termos contemporâneos e práticos, e é aqui que reside o problema. Como aplicar aquela mensagem aos moldes sociais de hoje? A prática do cristianismo precisa assumir determinada forma para fazer sentido aos de fora e aos de dentro, se é que queremos ser relevantes para alguém.
E esse é o ponto crucial, e onde vejo problemas. A mensagem bíblica propõe uma descontinuidade com o mundo, não a acomodação a ele, e o mundo propõe uma conformidade social na integração de todos – a eliminação das diferenças. Aplicar determinados trechos da Bíblia ao nosso mundo exigirá algum desconforto (em alguns casos muito desconforto), o que não será fácil viver nem ao menos ensinar o que implica isso. O modo de equacionar essa relação sem traumas é fazer uma leitura seletiva da Bíblia. Lemos e “vivemos” o que é mais confortável.
Por exemplo, trechos que exigem mais trabalho e despesas são podados do vocabulário e do sermonário. Mateus 25.38-40 é uma passagem que permanece no limbo. Quem pregaria sobre ela e convocaria a igreja a vivê-la intensamente?

Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou precisando de roupas e te vestimos? Quando te vimos doente, ou na prisão, e fomos visitar-te? E o Rei lhes responderá: Em verdade vos digo que sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, ainda que dos mais pequeninos, a mim o fizestes.

Uma desculpa possível para a amputação desse texto é argumentar que a vocação daquela igreja é outra, e não cuidar dos carentes (afinal, “os pobres, sempre tendes convosco”, Mt 26.11). Que outros cuidem. Isso é remediado apresentando programas elaborados, complexos, caros e de longo alcance. “Estamos ganhando o mundo!”. Mas por outro lado estamos perdemos a alma que está sentada no banco ao lado.
Outra leitura seletiva feita dominicalmente é o clássico texto de Malaquias 3.8. “Você não está trazendo o dízimo para a Igreja? – Ladrão! Está roubando a Deus” – e cita-se o início do versículo 10. Mas apenas o início, que manda trazer “todos os dízimos a casa do tesouro”. Por que não é lido o restante do versículo, ao menos a frase seguinte? Ele não é digno de confiança? Não, a frase seguinte não é lida porque envolve responsabilidade e gastos maiores, exige sair da zona de conforto, convoca a sair do mundo de Roberto Justus onde os dividendos devem ser distribuídos, não acumulados.
O texto diz que os recursos dos dízimos trazidos são para prover o bem estar dos fieis carentes, dos que têm alguma necessidade, dos que precisam de socorro. Mas quem de nós quer comprometer-se a ter mais trabalho e gastos para socorrer irmãos que podem, por si mesmos, trabalhar “e se virar com seus problemas para lá?”. E então fazemos a leitura seletiva do texto: é lida somente a parte que interessa.
Precisamos abandonar esse modelo, mesmo que aos poucos, e equacionar a essência com a prática, romper o ciclo no qual o modelo social e econômico e a cultura na qual vivemos determina a maneira como interpretamos e aplicamos os ensinos de Jesus a nossas vidas – e até como aplicamos o dinheiro. Em 2011 a Igreja teve lucro (!) de R$ 460 milhões em rendimentos com ações e aplicações financeiras! Temos sido “engolidos” pelo modelo vigente, mas o modelo vigente é o modelo da cultura caída, corrompida, que não se importa com vidas humanas – mas as estatísticas são bem vindas (os números sim, as pessoas não).
Essa prática que importamos das corporações, das empresas de sucesso, está regendo o nosso modo de “fazer a Igreja”, está dirigindo a prática cristã no nosso tempo e nos distanciando cada vez mais daquilo que deveria ser a nossa marca distintiva, a Igreja como fonte de espiritualidade, comunhão e de humanização.
Uma Igreja poderosa pelo padrão “Justus” não faz qualquer diferença na sociedade porque se iguala a ela, e não terá nada que oferecer a alguém que procure uma Igreja justa, diferente. Os R$ 20,6 bilhões arrecadados pelas igrejas em 2011 (dados da Receita Federal) fariam anunciar uma mensagem que não poderia ser rejeitada por nenhum incrédulo. Daria para tirar com muita sobra os 6,5 milhões de brasileiros da extrema pobreza e ainda sobrariam quase R$ 20 bilhões. Mudaríamos a vida dos que estão na faixa da pobreza. Faríamos uma revolução nunca antes vista na história do cristianismo.
Mas o leitor não se iluda, porque não estou coberto de razão. Eu também estou integrado a esse mecanismo e também ajudo a “alimentar o monstro”. Mas me reservo o direito de dizer o que tenho refletido, pois tenho inquietações pessoais. Talvez eu esteja muito equivocado, e no caso alguém poderá me ajudar a ver melhor as coisas. Mas insisto em tentar lançar luz na questão para um diálogo.

O que não posso ignorar é que há algo muito errado quando um cristão, empregado, trabalhando até 12 horas por dia, dizimista, com cargo na igreja local, chega a sua casa e ouve do filho que “as coisas estão difíceis, pois só havia meio copo de leite para beber” quando o garoto chegou da escola. Ou a igreja confundiu os papeis nalgum ponto da história ou “as portas do inferno” estão prevalecendo contra ela.